"Tem o que aí pra perder?"

Foto ilustrativa
Virou rotina ter carro da PM na entrada do morro, dia e noite, faça chuva ou faça sol. Esse caso foi na época em que os carros da PM era o lendário Gol Bolinha.

Descendo para a escola vestindo o normal de sempre: calça jeans clara, camisa escolar, tênis branco com detalhes vermelhos e relógio Orient. Já na entrada do morro, tem uma pastelaria onde muitas pessoas comem. Os chineses exclamam: “Vai joelo”?

Após comer, segui o caminho para a escola. Próximo a pastelaria tinha uma Blazer da PM. Aproveitei para tirar o relógio do pulso e guardar num bolso secreto da mochila. Depois de ter guardado - nem liguei pois já era acostumado com isso - nunca havia sido parado de uma forma tão estranha por eles. Guardar um pertence parece até ser um instinto diante da presença policial.

Um PM meio gordinho com alguns cabelos brancos e colete exagerado foi-se aproximando de mim e com uma abordagem respeitosa exclamou:

- Boa tarde jovem, pode encostar ali no carro por favor.

Como não tenho passagem na polícia, não devo nada para ninguém e etc, fiquei tranquilo e obedeci ao policial. Então ele pediu minha identidade e eu respondi:

- Deixei em casa, senhor.

Achando que ele iria dá uma dura por causa do “feito” de andar sem documento na rua, ele mudou o status de bonzinho e passou para o de um policial desonesto.

Mandou friamente uma indireta para mim:

- Tem o que aí pra perder?!

Sem reação alguma, respondi meio gago:

- Tenho nada não, senhor. Sou estudante.

Ele remendou com tom irônico:

- Só porque é estudante, não quer dizer que não tenha nada de bom pra nós.

Fui ficando meio tenso e ele pediu para eu abrir minha mochila. Abri a mochila, fui tirando um pouco lento as coisas de dentro e de repente, escutei uma chamada no rádio do carro:

- QTH, roubo a residência no Horto. (Identificação do carro eu acho) dirija-se ao QTH.

Dei um suspiro abafado e ouvi do outro PM que tava dentro do carro:

- SQL em caminho.

Nisso, o 2° PM chamou o PM que tava me subornando, ou melhor, me roubando isso sim. Antes do PM me liberar, ele disse:

- Se cuida estudante, andar sem documento é perigoso.

E aí, as vidas seguiram.. Hoje escapei. Amanhã, não sei.

4 comentários:

  1. Post doído. Foi difícil ler até o final porque é muito triste. Parabéns pela coragem e força pra mostrar essa realidade.

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  2. Muito interessante o tema do blog. Desejo muito sucesso, vou acompanhar os posts!

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  3. Achei o seu blog ótimo, Michel. Com certeza é muito corajoso da sua parte dividir algumas histórias com a gente. Estarei acompanhando as próximas postagens. Muito sucesso!

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  4. Como relatos "banais" do dia a dia podem ser tão profundos e significantes né. Obrigada por compartilhar

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